A importância dos pais no processo psicoterápico infantil

Esgotadas todas as suas armas procuram o profissional clamando por um a solução rápida e infalível, como se nós tivéssemos verdadeiras fórmulas mágicas, prontas para serem disparadas com um tiro certeiro. Não raro, exigem prazos, mudanças radicais imediatas daquele que se tornou fonte do problema familiar esquecendo-se, porém, de sua co-participação no processo.

Muitos, ainda, não admitem que teçamos nossa opinião sobre as condutas parentais que podem estar intimamente relacionadas à crise familiar, olhando nosso trabalho com certa desconfiança, imaginando que vamos interferir na maneira de educar e tratar seus filhos ou em sua relação conjugal como um todo. Outros se eximem totalmente de sua responsabilidade delegando ao profissional a solução de todos os seus problemas.

Isto ocorre, porque a grande maioria das pessoas desconhece o que seja um processo psicoterápico. Vêem o psicólogo como um antibiótico potente que curará todos os males em 2 ou 3 sessões.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que a criança não é apenas um mero produto do meio em que ela vive, mas, antes de tudo, um ser único com características próprias de personalidade e que absorve as experiências das formas mais variadas, principalmente através dos modelos parentais. Isto explica porque irmãos, criados no mesmo ambiente, podem senti-lo de forma diferente introjetando as imagens parentais de acordo com sua percepção de mundo. O limiar de frustração de cada um deles também obedecerá às suas características personalógicas. Além disso, cada qual também receberá influências externas que irão complementar a sua maneira de ver e sentir o mundo.

Mas, continuando o nosso raciocínio anterior, vale ressaltar que a terapia nada mais é do que um processo de autoconhecimento. Eu não posso eliminar um comportamento, se não entendo porque ajo desta maneira. Ele pode até desaparecer aqui e se manifestar acolá com outra roupagem. Isto porque os processos mentais dos indivíduos não são tão simples assim. Temos que trazer ao consciente o inconsciente, ou seja, verificar quais são as verdadeiras razões que estão causando aquele determinado tipo de comportamento, entender o seu significado, para depois eliminá-lo.

Com isto, quero dizer que eu não posso, por exemplo, ter um filho calmo, se ele vive num ambiente tumultuado com pais extremamente ansiosos. Ou seja, a criança participa de uma dinâmica familiar, sofre interferências desvantajosas para ela, mas também aprende a tirar vantagem daquilo que não vai bem, utilizando muitas vezes da chantagem emocional. Quando não consegue o que quer, ataca, usa da agressividade dirigindo-a a si ou aos pais, denotando que algo não vai bem.

Outra coisa que costumamos observar nos consultórios é um trocar de acusações entre os genitores: “Ele (a) é assim porque você não soube educá-lo!” (como se a educação só pertencesse a um dos pais)… “Ele (a) é assim porque você o (a) mima muito!” “Ele (a) reage desta forma porque você não tem a mínima paciência com ele (a) e vai logo batendo!”

Esquecem-se, porém, que a criança não é assim, mas está assim, e este estar tem uma causa, que, ás vezes, tem início no seio familiar.

Pare um pouco. Desça de seu pedestal de pai/mãe e analise-se como um ser passível a enganos. Pense no último comportamento de seu filho. Como você agiu? Qual a reação dele? E vice-versa. Se não foi algo positivo, pense em outra alternativa. Como você poderia ter agido e qual seria a possível reação dele neste caso. Se foi ele que iniciou o comportamento agressivo, tente imaginar o que ele queria com aquilo. Carinho, atenção, diálogo? Quantas vezes deixamos de dialogar com as crianças, imaginando que elas não nos entenderão e perdemos a chance de transmitir-lhes ensinamentos necessários ao seu crescimento sadio?

Devemos sempre lembrar que as crianças só repetirão os comportamentos que lhe trouxerem um resultado positivo, banindo aqueles que não levam à realização de seu intento. Exemplo: se cada vez que a criança chorar, os pais permitirem que ela se deite com eles em sua cama, ela estabelecerá este padrão de comportamento como modelo, repetindo-o toda vez que quiser gozar da companhia e proteção de seus genitores. Aqui deixamos de ensinar-lhes sobre o respeito ao espaço e intimidade alheias e também de investigar as verdadeiras causas que estão levando o filho a adotar tal conduta.

Bom, mas voltando ao processo psicoterápico é importante esclarecer aqui, que o papel do psicólogo não é o de acusar os pais ou a criança e, nem tão pouco, interferir na maneira que eles educam seus filhos ou conduzem suas vidas, mas sim ajudá-los a ter consciência da interferência de seus comportamentos no problema apresentado, ajudando-os a encontrar alternativas mais eficazes para saná-los.

DIAGNÓSTICO PSICOLÓGICO INFANTIL, LUDOTERAPIA E ORIENTAÇÃO DE PAIS

Em outras palavras, não compete ao profissional dizer aos pais “-faça isto ou aquilo, que você provavelmente obterá o resultado X”, mas sim conduzi-los a um estado de reflexão, verificando como o comportamento de cada membro da família está contribuindo para o agravamento do problema. Muitas vezes, a criança é apenas um fruto desta dinâmica. Basta ajustarmos algumas peças para que logo ela se enquadre no novo modelo.

Outra coisa que tenho observado é que, cada vez mais, o diálogo entre os cônjuges sofre limitações. O marido chega estressado do trabalho e acredita que já tem problemas demais para resolver e que compete à esposa a educação dos filhos. Em contrapartida, a mulher, que já está estressada, acredita que está sendo sacrificada e desiste de “controlar as rédeas” sozinha, alegando não ter mais forças. E aí a casa cai!

Volto a insistir, que o diálogo franco e aberto entre os cônjuges é muito importante no desenvolvimento do processo terapêutico do filho. Aqui é necessário deixarmos nosso orgulho de lado e nos empenharmos em prol daquele que amamos e que está sofrendo as conseqüências da desestruturação familiar.

Reconhecer nossas limitações é um sinal de crescimento. A criança não precisa ser exposta ás dificuldades de relacionamento dos pais. Ela precisa sim é de um elemento norteador. Mas, como ela vai encontrá-lo num meio onde, muitas vezes, ela acaba recebendo uma mensagem dupla? O pai autoriza e a mãe vem e desautoriza, a criança vem pedir algo e um joga a responsabilidade nas costas do outro (“vai falar com o seu pai ou com sua mãe!”).

Sempre costumo dizer, que nunca conseguiremos obter um resultado satisfatório num processo terapêutico se não houver um sério comprometimento de todos os envolvidos. Por que esperar pelo amanhã se podemos iniciar as mudanças hoje? Enquanto permanecemos na culpa, acreditando que estamos sendo punidos pela falta de competência de criarmos nossos filhos, deixamos de aprender com as experiências e de termos uma nova chance para reajustarmos tudo aquilo que não vai bem.

Fonte: Mgriesi

 

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