Entenda os efeitos da violência sexual em mulheres

Números alarmantes de casos de violência sexual contra mulheres no Brasil são, infelizmente, uma constante na mídia. Casos como o recente estupro coletivo da jovem carioca reacendem o debate. Ainda demonstram, além do fato de que a violência sexual é recorrente, o quanto as mulheres são submetidas a tais abusos por questões relacionadas a gênero e machismo.

Há uma inegável e triste cultura do estupro presente em todo o mundo. Ela pode ser reconhecida desde em notícias de jornais até nos comportamentos e discursos do dia a dia, que corroboram com pensamentos machistas, reafirmam e reproduzem um lugar de objeto da mulher na sociedade.

O psicólogo que recebe uma paciente vítima da violência sexual precisa lidar com efeitos que ressoam profundamente no seu sujeito. Uma grande responsabilidade que demanda cuidados especiais. No post de hoje, vamos entender como a violência sexual reverbera na vítima, bem como qual é o papel do psicólogo no tratamento.

As consequências da violência sexual para as vítimas

Segundo artigo da psicanalista Lucia Barbero Fuks, a violência sexual é “um tipo de violência diferente de outras. Implica uma vivência de solidão extrema e constitui uma situação limite para a sustentação do funcionamento psíquico, enquanto afeta o núcleo mais pessoal e básico de identidade: o corpo.”. Fuks descreve a relação de abuso enquanto um ato de violência que suspende a condição de sujeito da vítima. Nela, o abusador ocupa um lugar de dominante e exerce poder por meio da satisfação de suas próprias necessidades, desconsiderando as do outro. A psicanalista aponta que, para elaborar o trauma, é preciso que a mulher passe por um longo processo, no qual deverá se desprender da cena que captura sua subjetividade: “os fatos, a pessoa do agressor, seus mandatos, o medo, a vergonha, a humilhação, o ódio, o desejo de vingança”.

Os números da violência sexual contra mulheres no Brasil

Segundo dados do Ministério da Saúde, somente em 2015, foram registrados 17.871 casos de estupros, nos quais as vítimas são mulheres de todas as faixas etárias. E se os dados parecem alarmantes, há de se considerar que estes números se referem apenas aos registros na rede pública de saúde: os números totais são maiores e desconhecidos. O departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde ainda aponta para o fato de que 40% dos municípios não notificam os estupros – o que é obrigatório por lei desde 2003.

Dos casos registrados, a maioria deles – 57,81% –  ocorreu dentro de casa. Em mais da metade dos casos, o agressor tem algum tipo de relação próxima com a vítima (amigos, parentes, pais, padrastos). A direção do departamento, responsável por notificar os crimes, afirma que a violência sexual contra mulheres perpassa todas as classes sociais e configura uma questão de gênero. Dentre as vítimas, a maior parte é a de crianças e adolescentes.

A atuação do psicólogo

O tratamento do trauma de violência sexual tem início, segundo Fuks, na denúncia, uma vez que é ela quem “retira a vítima do isolamento e abre espaço para um terceiro que possibilita a emergência de um outro relato”. É assim que surge a narrativa que torna possível o acesso a um lugar antes dominado pelo terror. A recuperação da memória e a recriação das redes simbólicas da história permitirão que se recupere a subjetividade, de acordo com a psicanalista.

Para balizar o tratamento, três etapas devem ser consideradas:

  1. Estabelecer um bom vínculo terapêutico, com o qual o paciente se sinta seguro, para então seguir com uma avaliação que possa identificar sintomas e grau de stress pós traumático.
  2. Num segundo momento, o profissional deve atuar para o reprocessamento da experiência traumática – a etapa que vai levar mais tempo.
  3. Na última etapa, o paciente começa a se propor a resolver o impacto nas diversas áreas de sua vida, integrando novas percepções e comportamentos na sua rotina diária.

Você já se deparou com casos de violência sexual no seu consultório? Pôde observar os resultados do tratamento? Registre sua opinião nos comentários, ela é importante para nós e para seus colegas de profissão.

 

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