Porque as pessoas se comoveram tanto com a morte do ator Domingos Montagner?

 

O Brasil viveu momentos de incredulidade e perplexidade diante da morte do ator Domingos Montagner, que faleceu vítima de afogamento no cenário onde representou o último papel de sua vida, o rio São Francisco, o Velho Chico.

Em meio a tristeza que se abateu em milhões de pessoas, é inevitável não pensar no por quê, que diante de tantas mortes que acontecem todos os dias, justamente esta causou tanta comoção.

Sim, Domingos Montagner era um excelente ator, carismático, bonito, e tinha cara de “gente boa”. O que ele aparentava confirmou-se pelos depoimentos sinceros e emocionados dos seus colegas e das pessoas que conviveram com ele.

As circunstâncias de sua morte foram também no mínimo intrigantes. A ficção que vivia na obra que protagonizava realizou-se na vida real, deixando a sensação de que nada está sob controle, e que quando menos se espera, qualquer coisa pode acontecer a quem quer que seja.

Mas mesmo com todas estas considerações, ainda não temos uma lógica que nos explique a razão da tristeza verdadeira de tantas pessoas, que nunca conheceram o artista a não ser através de seus papeis.

Porém, ao considerarmos o momento por que passa nosso país, podemos supor algumas coisas.

Carentes de acreditar em alguém, ávidos de sentir que qualidades como  integridade,  honestidade e  lealdade ainda existem, os brasileiros identificaram no personagem “Santo” a pessoa que representava todo este ideal de um ser humano bom e confiável, defensor de valores nobres, bom pai, bom filho, bom irmão e bom amigo, leal às  suas convicções e ao amor de toda sua vida. E o ator Domingos Montagner emprestava o seu corpo para concretizar a vivência desta fantasia, projetando a esperança de que ainda existam pessoas assim, o que tornava mais leve o peso da descrença e da desesperança que se abate atualmente sobre todo povo brasileiro.

A morte do ator vem junto da percepção da morte de Santo, com todos as suas virtudes, que representam o ideal das pessoas de bem deste país. Todos estão chorando pela própria sensação de vazio, pela decepção diante da impotência do ser humano frente ao destino, que não poupa nem mesmo as pessoas justas e do bem.

Além da perda do grande ator e da pessoa que ele era, os brasileiros choram também pela fragilidade da vida, pelo sentimento de que ela pode se perder num estalo de dedos, numa esquina qualquer, ou nas águas de um lindo rio, aparentemente tão manso e inofensivo. E absolutamente ninguém está livre das surpresas que a vida nos reserva nos seus caminhos.

E para aqueles que passam pela perda de alguém ou algo muito importante na vida, deixo um texto que pode explicar o caminho da superação das perdas e trazer esperança para os corações que sofrem.

Perdas são como queimaduras. No primeiríssimo instante não sentimos dor, apenas um susto. Depois começa a doer e a dor vai crescendo a um nível quase insuportável. Parece que não vai passar nunca! A dor persiste e nada parece ter mais graça ou importância. Ela absorve toda nossa atenção e continua a doer. Mas chega um momento que a dor vai diminuindo quase que de forma imperceptível e aos poucos nossa paz vai sendo possível. Por vezes algo toca a ferida, e ela volta a doer demais! Aos poucos vai passando novamente…
Um belo dia percebemos que a dor vai dando lugar a um dolorido, e depois a queimadura vira uma cicatriz, que nos lembra sempre do que aconteceu, mas que não dói mais como antes.
Continuamos a viver com aquela marca, mas a felicidade já é possível.
Elaborar as perdas da nossa vida de forma saudável é fundamental para que possamos seguir em frente com direito a
ser feliz novamente.

Luciana Lemos

Psicóloga e diretora do Ciclo CEAP – Centro de Estudos Avançados de Psicologia

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