TANATOLOGIA – TODO PSICÓLOGO DEVE ENTENDER SOBRE ISTO

TANATOLOGIA – UM TEMA ESSENCIAL

A primeira vez que tive contato com um estudo mais aprofundado sobre Tanatologia foi no início das atividades do Ciclo CEAP, quando eu e mais dois colegas psicólogos resolvemos promover um evento sobre o trabalho da psicologia com os pacientes terminais. Tínhamos interesse especial por este tema, nada estudado na formação universitária, porém tão importante no exercício profissional.

E foi assim que fizemos com muito sucesso em Belo Horizonte o Io Simpósio Mineiro sobre a Morte e o Morrer, em julho de 1990.

COMO O ESTUDO SOBRE A MORTE PASSOU A TER IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO PSICOLÓGICO, MÉDICO E HOSPITALAR

Trouxemos vários especialistas, muitos deles autodidatas, que compartilharam suas experiências nos hospitais e consultórios, acompanhando pessoas gravemente enfermas e suas famílias. Nesta época não havia muita produção científica sobre o assunto, e mesmo os hospitais mais renomados não tinham um serviço de psicologia para seus pacientes. Este simpósio foi um marco que começou a transformar a Psicologia Médica e Hospitalar em uma vertente sistematizada e reconhecida da psicologia.

Foi um evento marcante em minha vida, por se o primeiro trabalho do Ciclo CEAP e também por ser o início do estudo sobre um tema pelo qual tenho interesse até os dias de hoje.

AS CONTRIBUIÇÕES DE ELIZABETH KÜBLER-ROSS – A MAIOR REFERÊNCIA EM TANATOLOGIA

Neste época dediquei-me a leitura dos livros da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, que se especializou em cuidados paliativos e em situações próximas da morte.

Depois de trabalhar durante anos em contato com pacientes em estado terminal, desenvolveu o famoso modelo Kubler-Ross, em que estabeleceu as cinco fases do luto, aplicáveis às pessoas que passam pela iminente perda da vida por um processo de doença terminal, assim como aos seus familiares. Seus estudos estendiam-se também às pessoas que perderam seus entes queridos repentinamente.

O MODELO DAS 5 FASES DO LUTO

Ela observou através das experiências de seus pacientes que descreviam suas agonias, expectativas e frustrações, que existem cinco estados mentais que atuam como referência para entendermos como vai acontecendo a evolução do enlutado, desde o momento que ele recebe a notícia de uma doença grave ou que seu ente querido morreu, até a aceitação desta nova situação.

As fases são: Negação; Raiva; Negociação; Depressão; Aceitação.

Isso não significa que todas as pessoas em fase de luto atravessem as 5 etapas nem que elas passem pelas 5 fases na ordem descrita. No entanto, Elisabeth Kubler-Ross considerou que estas etapas eram muito úteis como sistemas de categorias, para poder conceituar de um modo relativamente simples, todas as formas  como as pessoas administram o luto.

ELIZABETH KÜBLER-ROSS NO BRASIL – UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL!

Desde esta época admirei profundamente o trabalho de Elisabeth Kubler-Ross, até que em julho de 1991 tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente no II Congresso Holístico Internacional promovido pela Associação Universidade da Paz de Minas Gerais.

Elisabeth Kubler-Ross era a estrela internacional do congresso lotado no Minascentro, e toda plateia se surpreendeu ao conhecer  uma senhora simples, serena, que compartilhou sua experiência com a humildade dos sábios, e a gentileza dos bons de coração.

COMO FALAR DE MORTE E SOFRIMENTO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Foi uma palestra inesquecível onde ela contou sobre seu trabalho sobre o adoecimento e os vários tipos de morte em crianças e adolescentes, e suas respectivas repercussões sobre as famílias. Ela contou que abordava as crianças por meio de desenhos que eles produziam durante os contatos com ela, e os interpretava como sonhos, usando uma linguagem simbólica. Ela considerava que as crianças tinham mais clareza quanto ao seu estado do que se supunha e, portanto, estavam expostas também a uma dor e a um sofrimento maiores, pelo fato de não conseguirem partilhar suas dúvidas, angústias e pensamentos com outras pessoas através da expressão verbal.

UMA METÁFORA PODEROSA

Ela defendia que na conversa com as crianças através de metáforas, elas podiam ter contato com sua condição por meio de informação honesta e aberta, porém adequada a sua maturidade. Ela usava muito a metáfora do casulo e da borboleta. Para ela, o corpo físico é a morada temporária da alma ou entidade que se liberta, como uma borboleta do casulo, para habitar uma dimensão atemporal, na qual não há dor nem sofrimento, onde só há beleza, prazer e plenitude, onde a pessoa é recebida por um ente querido que já tenha feito o que ela chamava de transição, e onde nunca se está só.

Ela também falou das consequências trágicas do luto mal elaborado dos pais e irmãos e a necessidade de tratá- los por meio da escuta acurada e de orientação familiar para prevenir o adoecimento emocional, ajudando-os a superar a perda.

A IMPORTÂNCIA DA ALMA E DO CORAÇÃO

Ela dizia que o conhecimento teórico era importante, mas que ele de nada valia se não se trabalhasse com o coração e a alma, e que a regra principal nesse novo modelo de atendimento era levar em conta a opinião dos pacientes, sem julgá-los, mas ajudando-os a fazer suas escolhas.

Finalmente ela conclui que, ao estudar a morte, ela aprendeu mais sobre a vida e seus mistérios.

Elisabeth Kübler-Ross foi aplaudida de pé por mais de 1 minuto, e suas palavras marcaram no Brasil o início de um novo modelo de enfrentamento das perdas, e da abordagem dos pacientes terminais e suas famílias.

Ela morreu em 2004 deixando os livros:

  • Sobre a Morte e o Morrer.
  • Morte – Estágio final da evolução..
  • Perguntas e Respostas sobre a Morte e o Morrer.
  • A morte: Um amanhecer
  • A Roda da Vida: Memórias do Viver e do Morrer

A DESPEDIDA DE QUEM AJUDOU TANTAS PESSOAS A SE DESPEDIREM

Elizabeth Kübler-Ross despediu-se da vida depois de vários derrames cerebrais em 2004 deixando um legado da maior importância para a psicologia e psiquiatria. Deixou também a doce e célebre frase de adeus:  “Agora vou dançar em todas as galáxias”

E lá deve estar ela,,,

Luciana Lemos

 

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