Assumindo a homossexualidade – Como o psicólogo pode ajudar seu paciente

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Assumindo a homossexualidade – Como o psicólogo pode ajudar seu paciente

Assumindo a homossexualidade pode ser um parto!

Na maioria dos casos dói!

Até a paz chegar, muita turbulência interna acontece, e nem sempre as pessoas que passam por isso conseguem evitar o conflito relativo a auto percepção, auto aceitação e adequação tranquila no mundo que vivemos. Isto sem contar o stress do assumir a homossexualidade perante a família, amigos, ambiente de trabalho e sociedade.

Neste momento, muitas pessoas buscam ajuda profissional, e o psicólogo deve estar preparado para atender e ajudar seu paciente.

Muitas dúvidas acontecem neste momento

O terapeuta tem que primeiramente entender qual o estágio de autoconhecimento está a pessoa. Alguns chegam ao consultório com outras queixas, e as mais comuns são ansiedade excessiva e depressão.

A questão da homossexualidade muitas vezes surge depois.

Algumas pessoas procuram ajuda psicológica na fase da descoberta da sua homossexualidade, outros já têm esta condição bastante conhecida, mas ainda vivenciam uma vida social heterossexual.

Outros estão em plena fase do assumir, com todos os seus conflitos e circunstâncias peculiares de cada vivência.

As dúvidas mais comuns são sobre assumir ou não, para quem contar, como contar, e tudo isso com todas os receios da rejeição, e das consequências muitas vezes sérias e prejudiciais para a vida da pessoa.

INTERVENÇÕES EDUCATIVAS EM SEXUALIDADE E PREVENÇÃO À VIOLÊNCIA

O preconceito ainda domina a sociedade, mas temos que contribuir para a mudança que queremos ver neste mundo!

Uma coisa não podemos negar. Vivemos em um mundo repleto de desconhecimento e preconceito, onde as pessoas não aceitam as outras como elas são por pura ignorância, por não saberem que opção sexual não é escolha e sim uma condição humana, que não é doença, e muito menos deve ser julgada ou condenada.

Mas a sociedade ainda tem muito que evoluir para que esta condição humana possa ser percebida e considerada como uma coisa natural que merece respeito e aceitação.

Enquanto o tempo da compreensão e empatia não chega, nós psicólogos temos muito trabalho a fazer, ajudando nosso paciente no enfrentamento deste desafio e minimizando seu conflito interno e externo.

Temos que agir com cautela para proteger nosso paciente

Parece obvio que devemos incentivar estes pacientes a assumir sua condição perante tudo e todos, mas temos que ter muita sensibilidade para conduzir o processo terapêutico ou o aconselhamento psicológico. Cada caso deve se analisado com critério, e o contexto da vida de cada paciente deve ser considerado. Muitas vezes é preciso um longo trabalho de preparação do paciente e da família para que este assumir aconteça da melhor forma possível.

Um caso clínico

Acompanhei um caso em que um adolescente estava em conflito sobre se devia ou não assumir sua homossexualidade perante sua família, mas principalmente diante de seu pai, que sempre dizia que expulsaria de casa um filho nesta condição.

A mãe, apoiava a posição do pai que era provedor único da casa, e pertencente a uma família tradicional na pequena cidade que moravam. Por mais que o desejo de assumir estivesse presente neste rapaz, este fato seria devastador para a vida dele naquele momento.

O desafio foi preparar a família para que esta notícia fosse assimilada da melhor maneira possível, minimizando o estrago que ela poderia causar se fosse feita de maneira precipitada e inadequada.

A mãe foi trazida para a psicoterapia por causa de uma depressão, e o trabalho familiar começou por ela. O pai era arrogante e autossuficiente demais para procurar uma ajuda psicológica para os desajustes familiares que eram muitos. Porém acabou indo por indicação médica, por causa de um problema psicossomático que não melhorava com tratamento medicamentoso.

Levar a família a um trabalho em grupo foi um passo que ainda demorou bastante, mas um dia aconteceu. Paralelamente aos conflitos de cada um, muitos outros aspectos foram trabalhados, ampliando a capacidade de percepção de mundo deste pai e desta mãe, e potencializando a autoestima e segurança do filho.

O assumir aconteceu um dia, e o pai, ao contrário do que o filho esperava, teve uma reação surpreendente, apoiando-o com um abraço em silêncio. As muitas lágrimas de ambos foi um sinal de paz, amor e aceitação. Um tempo depois o pai disse que sempre soube, mas que foi muito difícil para ele aceitar.

Parece que foi fácil, mas não foi

Contando assim de forma resumida parece que o caminho terapêutico foi fácil, porém foi bastante complexo!

Entre a primeira consulta do rapaz e o abraço do pai passaram-se 3 anos. Algumas crises aconteceram depois disto, e muitas adaptações tiveram que acontecer, para hoje a família estar em paz.

O rapaz atualmente está em um relacionamento sério, seu parceiro frequenta normalmente a sua casa e convive harmoniosamente com toda a família. Uma situação inimaginável há alguns anos!

Nem sempre as coisas acontecem assim. Na maioria das vezes enfrentamos junto com nosso paciente uma dura batalha neste “sair do armário”.

O terapeuta tem que olhar para dentro de si e procurar suas próprias travas e preconceitos

Podem ter muitas feridas e muito sofrimento neste processo, mas é importante ressaltar que temos que sempre procurar dentro de nós os nossos próprios preconceitos e nossas travas culturais para que, conhecendo-as podermos questioná-las e superá-las, no propósito de minimizar o sofrimento das pessoas que nos procuram profissionalmente com este objetivo.

Existem muitos recursos que podem ser usados na psicoterapia

Outro ponto importante é estarmos dispostos a fazer muita reflexão sobre estas questões, e também  nos capacitarmos com recursos terapêuticos para conduzir a psicoterapia ou o aconselhamento, pois existem muitas formas de reduzir a ansiedade, minimizar o stress, promover a transformação de crenças disfuncionais, ampliar o repertório de enfrentamento, e diversos outros instrumentos terapêuticos que podem ser usados para fortalecer o paciente.

Criar um relacionamento de confiança é essencial para que o paciente se solte, e crie um vínculo terapêutico sólido. Este vínculo é inclusive mais importante que as técnicas utilizadas no transcorrer da terapia.

Cada abordagem terapêutica tem uma escuta e métodos diferentes, mas no encontro verdadeiro do terapeuta e do paciente que a transformação acontece.

Temos que estar bem conscientes do nosso papel transformador do mundo em que vivemos, e exercer a psicologia conscientes do caminho que queremos trilhar.

Luciana Lemos

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