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Possessividade e ciúme

Regina Navarro Lins

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana já fez alguma cena de ciúme. A expressão “monstro dos olhos verdes”, para falar do ciúme amoroso, remonta a Shakespeare, no Ato III, do seu Otelo, em que este, transtornado pelo ciúme, mata sua inocente esposa Desdêmona.

Ciúme é basicamente isso: sofrer por uma situação hipotética, na qual o ciumento faz interpretações, muitas vezes equivocadas, dos sinais que percebe. Contudo, estudos mostram que quase todos os homens e mulheres experimentaram pelo menos um episódio de ciúme intenso, difícil de controlar. E entre os que admitem ser ciumentos, 38% dizem que o ciúme os tem levado a querer ferir alguém.

O ciúme envolve uma espécie de ansiedade de abandono. Para superar os crescentes sentimentos de impotência, o ciumento se esforça por sufocar o outro. Seus interrogatórios e pedidos de garantia de fidelidade fazem parte das tentativas de controle.

Picasso, o grande pintor espanhol, por exemplo, exercia demasiado controle sobre as mulheres que amava. Fernanda, uma delas, foi à sua casa para posar como modelo e acabou ficando nove anos. Extremamente ciumento, para não perdê-la, escondia-lhe todos os sapatos, de modo que ela não pudesse sair de casa.

Alguns consideram o ciúme universal, inato. Outros, entre os quais me incluo, acreditam que sua origem é cultural, mas é tão valorizado, há tanto tempo, que passou a ser visto como parte da natureza humana. De qualquer forma, não há dúvida de que a relação amorosa sempre foi prejudicada pelo ciúme. Inicialmente, o medo do homem estava ligado à falsificação da descendência — deixar a herança para um filho que não fosse seu. Por conta disso, as mulheres foram aprisionadas durante milênios.

A pílula anticoncepcional, na década de 1960, trouxe a separação definitiva entre sexo e reprodução e, consequentemente, a igualdade de condições entre homens e mulheres nessa área. Mas por que o ciúme é aceito como fazendo parte do amor? Por que se defende a sua presença numa relação amorosa, mesmo sabendo que o preço a pagar é tão alto?

Encontramos ao menos parte da resposta na forma como o adulto aprendeu a viver o amor, que é, em quase todos os aspectos, semelhante ao modo que a criança vive a relação amorosa com a mãe. Por se sentir constantemente ameaçada de perder esse amor — sem o qual perde o referencial na vida e também fica vulnerável à morte física — a criança se mostra controladora, possessiva e ciumenta, desejando a mãe só para si.

Na idade adulta, é através da pessoa amada que se tenta satisfazer as necessidades infantis. Reeditando a mesma forma primária de vínculo com a mãe, o antigo medo infantil de ser abandonado reaparece, e a pessoa amada se torna imprescindível. Não se pode correr o risco de perdê-la. O controle, a possessividade e o ciúme passam, então, a fazer parte do amor.

Quando a pessoa consegue elaborar bem a dependência infantil e também se libertar da submissão aos valores morais, se percebe menos ciumenta. Caso contrário, podem reaparecer as antigas inseguranças, com exigência de exclusividade no amor.

A questão do ciúme está diretamente ligada à imagem que cada um faz de si. Quem tem a autoestima elevada e se considera interessante e com muitos atrativos não supõe que será trocado com facilidade. E se a relação terminar, sabe que vai ficar triste e sentir saudade, mas também sabe que o mundo não vai acabar por isso.

Fonte: Uol Mulher

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Terapia de casal

 

 

 

3 Comments

  1. Isabella disse:

    Licença para fazer uma crítica:
    Pessoal, o UOL como fonte bibliográfica não pegou muito bem. Se consideramos que o site se refere a uma instituição de ensino em Psicologia, seria mais interessante o uso de referências bibliográficas mais consistentes, sem contar que Regina Navarro não é psicóloga e seu posicionamento ideológico costuma falar mais alto que sua “neutralidade científica”.
    O texto esta escrito por uma ótica aparentemente psicanalítica, porém não há citação ou referência alguma sobre esse ponto de vista teórico. Particularmente, penso que é interessante demarcar as origens ideológicas e epistemológicas que embasam nosso posicionamento para evitar a propagação de “verdades absolutas” considerando que não há consensos entre as correntes da Psicologia sobre a maioria dos temas como personalidade, inteligência etc.
    A coluna da UOL é feita para leigos e o viés mercadológico e apelativo é nítido para atrair leitores do público em geral.
    Sou a favor de um discurso sobre a Psicologia mais coerente e menos generalista.
    Desculpe qualquer coisa.

  2. Wildney disse:

    Texto muito bom.
    Só faço uma observação com relação ao caráter cultural que você atribui ao ciume e a explicação para tal.
    Quando você diz que “o medo do homem estava ligado à falsificação da descendência”, me fazendo entender que ai se dá a origem cultural do ciume, eu te pergunto: seria também o amor uma “invenção” cultural? visto que em épocas passadas as pessoas se casavam e escolhiam seus parceiros com base na perpetuação do sangue nobre da família e, ainda hoje, em muitas culturas, quem escolhe o parceiro ideal é a família e não o próprio indivíduo.

  3. MARISA COSTA disse:

    Parabens pelo excelente artigo!

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