Reflexão: “Transformação do psicólogo no exercício da clínica de família e casal”

Terapia de família, casal, psicologia - Blog Ciclo CEAPA busca pelo aprimoramento da prática clínica com o enfoque familiar associa-se com o desejo de “preencher” uma falta, mas podemos perceber que neste processo outras faltas se fazem presentes, estas sendo circulares. Nesse sentido, o saber proporciona outras formas e possibilidades de conversações, bem como criar outras narrativas a partir da experiência vivida e da construção de novas experiências.

Nesta busca pelo saber cada intervenção pode gerar novas “crises”, “flutuações” e “desdobramentos” do cliente/sistema, criando um novo sentido, uma nova forma de estar junto, ao invés de produzir explicações reducionistas e julgamentos.

Acredito, que a transformação acontece, quando buscamos agregar novas perspectivas na prática com família e/ou casal ampliando nossos valores e focando os atendimentos nas soluções e não no problema e sua compreensão, sendo esta postura um exercício constante.

Desta forma, a experiência clínica com o enfoque familiar nos desafia a reavaliar os diferentes aparatos metodológicos, técnicos e teóricos na prática terapêutica. O que traz angústias, inseguranças e estranheza sobre qual é o lugar do terapeuta no saber e no fazer na contemporaneidade. Assim, o psicólogo clínico seja qual for a sua formação acaba por fazer um movimento mais amplo, isto é, a ter uma visão para além da família nuclear, pois a própria prática lhe conduz a uma mudança de postura devido às novas exigências, o que leva a um olhar sistêmico com uma multiplicidade de conexões.

Quando se tem consciência da amplitude de possibilidades e diálogos possíveis diante das intervenções terapêuticas e de que podemos fazer diferente do convencional, sem é claro excluí-lo não tem como ter volta, pois mudamos nossos valores diante do que foi aprendido, porém ainda não sabemos como operacionalizar o pensamento não linear e nos sentimos desconsertados devido às exigências internas e externas.

O desafio maior é construir com o(s) sujeito(s) que a sua “realidade” depende dos elementos subjetivos e estruturais em suas diferentes percepções em diferentes momentos por se basearem em diferentes valores, isto é, não precisam encontrar uma verdade absoluta, mas se querem ou não assumir ou manter um padrão disfuncional que retroalimenta a queixa, bem como encontrar soluções de mudanças através do significado atribuído a sua ação dento do seu contexto.

Portanto, pensar no modo de como engajar-se terapeuticamente com os clientes que procuram ajuda implica rever o que significa ser uma família e um casal, bem como a recontextualização buy viagra online das possibilidades de relação a fim de proporcionar um atendimento mais coerente diante da necessidade vivida pelo sistema familiar.

Na construção deste aprendizado deveríamos nos questionar: Sinto-me adequada(o), nesse caso específico, a esses clientes? Que efeito tem em mim este casal e /ou família? Estou compensando os conflitos não resolvidos da minha própria família, tentando resolver os conflitos de outras famílias? Será que a desestabilização no sistema familiar é ruim? Será que o objetivo da terapia é corrigir desestabilizações? A instabilidade da realidade construída pelos membros da família e/ou casal seria como um fator de desenvolvimento, de aprendizado? A busca de homeostase do sistema relacional da família e/ou casal poderia ser como fator de paralisia no processo de desenvolvimento do sistema familiar?

Estas questões perpassam a pessoa do terapeuta na prática clínica, pois no contato com o cliente/sistema este não é o único a colocar-se em movimento, pois estamos em processo de desenvolvimento pessoal e profissional, sendo interpessoal, porém respeitando as peculiaridades do encontro psicoterápico.

A dificuldade encontrada na prática terapêutica com o enfoque familiar é aprender a exercitar o entendimento construtivo, descartando classificações e rótulos, dedicando-se a examinar o funcionamento do sistema familiar e detendo-se nos “comos” e “para quês” das incontáveis trocas contínuas estabelecidas nos relacionamentos interpessoais.

Enfim, percebo a importância de caminhar para uma prática que englobe o sujeito, a família e o contexto sócio histórico enfatizando a relação ente eles, pois o sujeito não pode ser considerado isoladamente e sim numa visão dialética deste e sua família, contribuindo para diluir a cisão existente entre indivíduo e grupo, externo e interno, intrapsíquico e interacional.

Com isso, as intervenções sejam em qualquer contexto não exigem regras pré-determinadas, pois não é uma técnica, mas uma ética do saber e do fazer terapêutico articulando a intervenção dirigindo-se ao(s) sujeito(s) a fim de proporcionar um bem dizer.

 

Metáfora da Borboleta

“Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair.
Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito, e eu estava com pressa. Irritado, curvei-me e comecei a esquentar o casulo com meu hálito.
Eu o esquentava e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las.
Curvado por cima dela, eu a ajudava com o calor do meu hálito. Em vão. Era necessário um acidente natural e o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol – agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada, antes do tempo. Ela se agitou desesperada, alguns segundos depois morreu na palma da minha mão. Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois, hoje entendo bem isso, é um pecado mortal forçar as leis da natureza.
Temos que não nos apressar, não ficar impacientes, seguir com confiança o ritmo do Eterno.” Nikos Azanizaki
Extraído do site: http: www.editorasaraiva.com.br

A história da metamorfose da borboleta expressa o momento em que fomos lagarta e casulo para podermos ser borboleta e mostrarmos como ficaram nossas asas. É claro que cada um vai ter uma cor, formas e tamanhos variados, mas o que mais queremos é conseguir alçar vôo!

Assim, como a lagarta nos transformamos enquanto aprendemos, precisamos de alimento, calor, água, sol e o mais importante, de medida. Entretanto, cada pessoa ou lagarta vai ter a sua medida e o seu tempo.

Por isso, não adianta querer apressar o processo, pois para as asas da borboleta se abrir e mostrar sua beleza por completo, é necessário ter paciência e sabedoria, sendo que o momento de ser casulo é necessário para acomodarmos novas informações e assimilá-las. Enfim, não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.

 

Enviado por: Cibele de Oliveira Pedrosa Simões – Psicóloga

 

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