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Vaidade e relações superficiais mostradas em Coringa

Vaidade e relações superficiais mostradas em Coringa remetem aos dias de hoje

Atualmente impera a exposição da felicidade e do sucesso nas redes sociais, mesmo que não sejam verdadeiros

O filme Coringa mexeu tanto com Renata Feldman, psicóloga e psicoterapeuta humanista, escritora, palestrante e professora, que ela o assistiu duas vezes, tamanha as provocações. Em sua interpretação, a profissional começa explicando que o ser humano é multifacetado, “há uma pluralidade que nos atravessa”. Assim, no complexo processo de existir, o homem olha para si, se enxerga, muitas vezes não se reconhece, não se compreende. Olha para o mundo, interage com o outro, busca referências, almeja chegar a algum lugar, mas muitas vezes se perde no caminho. A clássica e atual pergunta “quem sou eu?” remonta à Grécia Antiga e às ponderações de Sócrates (470-399 a.C.), que atribuía à autoanálise e ao autoconhecimento uma vida genuinamente feliz. Segundo o filósofo, “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”.

Para Renata Feldman, o personagem Coringa, estrelado pelo ator Joaquin Phoenix, vivia, refletia, ria, delirava, sonhava, agia e interagia lançado à sua condição existencial permeada de dor. “Assim também caminha a humanidade: cada indivíduo com a sua história, passado, travessia, emoções, idiossincrasias e máscaras. São elas que nos ‘apresentam’ ao mundo, estabelecendo uma forma de exposição e interação social a partir dos papéis que exercemos. A máscara – ou persona, como denominou Carl Jung em sua psicologia analítica –, nos caracteriza e nos representa perante a alteridade por meio da imagem que transmitimos e da nossa forma de reagir ao mundo.”

Ao tentar responder sobre si mesmo a “quem sou eu?”, o homem, destaca Renata Feldman, esbarra no outro – não só nas suas relações atuais como também nas raízes que o constituem. “E é aí que muitas vezes ele sente a necessidade de intensificar o uso de suas máscaras, buscando ser incluído, aceito e amado pelo outro. Ou buscando apenas se proteger, lançando mão de mecanismos de defesa e jogos sociais que o coloquem – mesmo que ilusoriamente – numa situação favorável diante da vida.”

Renata Feldman

Renata Feldman conta que no livro O lado sombrio dos buscadores da luz, Debbie Ford aborda o ser humano em sua totalidade, convidando o leitor a reconhecer os aspectos negativos que costumam negar ou esconder. “Nesses tempos virtuais, em que impera uma certa espetacularização do eu, as redes sociais parecem multiplicar faces como a do palhaço Happy, o lado ‘iluminado’ do Coringa, que se agarrava à alegria, ao sucesso, ao sonho de obter fama e reconhecimento. Por meio da telinha, a felicidade se expõe infalível e certeira, envaidecida pelo número de likes e visualizações, contrastando muitas vezes com o lado sombrio de uma tristeza genuína, real, mas que não é publicada. Assim como o palhaço Happy, as pessoas sonham com fama, sucesso, reconhecimento e a própria promessa de felicidade – e parecem encontrar na internet um caminho rápido, instantâneo – ainda que muitas vezes artificial”.
Pluralidade humana

Na visão da psicóloga, a máscara do Coringa aciona o lado sombrio de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), acarretando-lhe fama e repercussão por meio de outros meios. “Daí parece advir uma outra forma de realização, impulsionada pela força do coletivo e evidenciada neste pensamento dele: ‘Durante toda a minha vida eu nem sabia se eu realmente existia. Mas eu existo, sim. E as pessoas estão começando a perceber’. A vida real também contempla outras formas antagônicas de existir envolvendo a pluralidade humana”. Em sua pesquisa de mestrado, intitulada “As várias faces da mãe contemporânea”, a especialista mostrou uma realidade contrastante com a imagem romantizada da maternidade, em que as mães são tidas como santas ou heroínas. “A pesquisa mostrou (e minha prática na clínica confirma) que elas vivem conflitos e ambivalências ao exercer o seu papel de mãe: sentem alegria, felicidade, realização, mas também culpa, ansiedade, esgotamento, frustração”, diz.

No fim, a questão é: como manter a sanidade, a verdade, a essência ainda que máscaras sejam inevitáveis?. Para Renata Feldman, “a busca do autoconhecimento gera reflexão, crescimento e fortalecimento emocional. Ao olhar para dentro, o sujeito arranca as máscaras e se liberta do olhar do outro, encontrando o que há de mais genuíno em si. Descobre que pode desfrutar da liberdade e autonomia de ser quem se é, buscando uma vida plena e autêntica. Foi isso o que o filósofo Kiekergaard (1813-1855) – pai do Existencialismo – propôs ao pensar essa autenticidade que nos tira do desespero: a coragem de sermos quem verdadeiramente somos. Ou, nas palavras do poeta grego Píndaro, repetidas por Nietzsche: ‘Torna-te quem tu és’”.Vilão ou herói?

“Fui ver Coringa, de Toddy Phillips, e saí do cinema com a sensação de um soco no estômago, gosto amargo na boca e um turbilhão de pensamentos”. A declaração é de Gilda Paoliello, psiquiatra, psicanalista e professora do curso de pós-graduação em psiquiatria do Ipemed. “O filme é estranho. Um estranho bastante familiar, que  prende você em um emaranhado de sentimentos confusos. Ainda mais perturbador quando nos pegamos sentindo empatia pelo vilão. Ou herói? Esta ambivalência e dualidade nos provoca todo o tempo. É um paradoxo, seu sentido é inesgotável.” O filme descreve a saga do doce e sonhador Arthur Fleck, que se ocupa em cuidar da mãe doente, se transformando no monstro Coringa (spoiler!), seu próprio assassino. O que provoca essa metamorfose?

“Parodiando Bertolt Brecht, podemos dizer que há muitas maneiras de matar, mas também de enlouquecer uma pessoa – ‘cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando-a à miséria, fazendo-a trabalhar até arrebentar, impelindo-a ao suicídio, enviando-a para a guerra etc. Só a primeira é proibida por nosso Estado’. Esse pensamento brechtiano nos permite refletir sobre a responsabilidade da sociedade em relação à transformação do doce Fleck no monstro assassino, tornando essa monstruosidade não apenas justificável, mas até perdoável”, chama a atenção a psiquiatra.

“Logo no começo, o filme denuncia que o serviço social no qual o futuro Coringa se tratava de seus estranhos problemas mentais teve a verba cortada e sua terapeuta é desligada. Ele, portanto, perde a terapia e os remédios que recebia gratuitamente. Situação bastante familiar, não?”, alerta Gilda Paoliello. “Então, a história é universal e atemporal, poderia estar em qualquer lugar, em qualquer tempo. Por quê? Porque desvela o que há de mais oculto em nós, sob a ‘covardia da consciência’, como nos diz Shahespeare, em Hamlet – ‘Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem’…’ser ou não ser, eis a questão’. Essa angústia da dúvida parece não afetar o personagem – que em sua transformação marcha decididamente para subverter a ordem –, mas sim a nós, espectadores, que já não sabemos mais onde está o certo e o errado, o bem e o mal.”

INSTAGRAM Para a psiquiatra, o Coringa aponta também uma outra face do adoecimento do mundo atual – a cruel imposição superegoísta adotada pela sociedade capitalista do “be happy”: “Todos com máscaras risonhas nas redes, sonhando ser reconhecidos, sob imagens fakes, no mundo dos instragramers, enquanto as mídias sociais catalisam e proliferam este apodrecimento de uma sociedade que se alimenta de valores rasos, toscos. Não percebendo que quem ela ataca é espelho dela própria.”

Palavra de especialistaMarcelo Seabra, jornalista, crítico de cinema e criador do blog O Pipoqueiro, hospedado no Portal UAI
“Ele não é apenas uma vítima da sociedade. Já havia uma sementinha lá dentro”
“Em uma das histórias fundamentais com o Coringa nos quadrinhos, ele defende a teoria de que todos nós estamos a um dia ruim da loucura. Ou seja: basta ocorrer algo bem trágico para um sujeito normal virar um criminoso degenerado. E ele não consegue provar esse ponto, mostrando que o louco é de fato ele. E é isto que o filme faz: Arthur, o protagonista, sofre diversos abusos, ninguém se importa com ele e tudo o mais. Mas ele é insano. Ele não é apenas uma vítima da sociedade. Já havia uma sementinha lá dentro, ele não  simplesmente perdeu a sanidade. Aí está a diferença entre esse e outros filmes ditos ‘de origem’, como fizeram com outros vilões e decepcionaram todos. Arthur não era um bonzinho que se perdeu. Ele fez maldades e gostou, e as seguiu fazendo. A genialidade de Joaquin Phoenix grita no filme. Já havíamos visto grandes trabalhos do ator, mas aqui ele chega em uma maturidade, ele explora o psicológico e o físico, ele constrói um personagem completo. Acredito 100% que muito do que vemos na tela não estava previsto. Surgiu do trabalho do ator. Ele mostra que Arthur era uma pessoa diferenciada, e no mau sentido. Todos temos máscaras, agimos e reagimos de formas diferentes em ambientes diversos. Mas isso não significa que a sociedade seja formada por psicopatas. O caso de Arthur é bem diferente.”

Texto: Estado de Minas

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