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luto

Busca de apoio psicológico é importante para entender que aquela morte pode ter sido resultado de um transtorno mental não diagnosticado ou não tratado

Por Queila Ariadne, Izabela Ferreira Alves, Tatiana Lagôa e Rafael Rocha
15/09/21 – 03h00

Um adolescente inteligente e leitor voraz que adorava uma biblioteca. Uma mulher com deficiência intelectual e auditiva em busca de ajuda psicológica. E uma menina que passava o dia trancada no quarto. Quase nada une essas três pessoas, apenas o fato de que elas decidiram encerrar a caminhada da vida com suas próprias mãos. “Eu via que ela se trancava no quarto e não comia. A vida dela era chorar. Eu abraçava, fazia oração e dava acolhimento. Procuro lembrar os momentos bons que passei com ela. A vida vai continuar, mas para mim está sempre faltando alguém”, lamenta Giane Aparecida dos Santos, 47, mãe da menina.

Aos 13 anos, a filha de Giane começou a se cortar. “Ela falava que vinha uma tristeza muito grande e chorava”, conta a mãe. A família buscou ajuda psicológica. A jovem recebeu tratamento, melhorou, conseguiu um emprego. Mas, depois de um assalto sofrido em 2020, nunca mais foi a mesma. “Um dia eu cheguei em casa e a encontrei sem vida. Infelizmente, a depressão me levou um pedaço, é uma doença que não dá sinais. Ficou um buraco, e nada tampa”, desabafa Giane. Em março deste ano, ela perdeu a filha, prestes a completar 20 anos.

Nem sempre há sinais, a dor pode ser verbalizada ou não, mas aguardar o pedido de ajuda chegar pode ser tarde. A falta de diagnóstico anterior de depressão aparece em alguns casos. Foi assim com Maristela*, jovem de 16 anos que teve alguns episódios de crise na escola. A tia, responsável pela garota, só veio a ser chamada depois que a menina se suicidou. “Eles chegaram a dizer que a culpa era minha”, revolta-se a tia. O ambiente escolar precisa ser um aliado de primeira ordem na prevenção ao suicídio, conforme lembra o psiquiatra Humberto Corrêa, presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia (Asulac) e professor da Faculdade de Medicina da UFMG. “As escolas estão cientes da importância do assunto, mas ficam muito passivas, só tomam providência quando acontece. Precisam ser mais educativas”, avalia Corrêa.

“Foi a coisa mais triste que aconteceu na minha vida”, afirma Rosângela Vilaça, que perdeu a irmã de 58 anos, que tinha deficiência auditiva e cometeu o autoextermínio. Ela diz que ficou como um “zumbi” após a morte repentina, mas que buscou ajuda no Grupo de Apoio a Enlutados por Suicídio (Gaes) da UFMG. “A vida segue, e, aos poucos, vou aprendendo que essa dor não vai acabar nunca, mas que pode ser ‘guardada’ no meu coração”, desabafa.

Apesar da dificuldade em perceber que algo está fora do prumo, estar sempre alerta ao mais sutil dos movimentos é importante. Segundo Corrêa, a pessoa eventualmente dá sinais de que não está bem, diz que a vida não vale a pena. “Ou então muda o comportamento, fica isolado, muda padrão alimentar e de sono. Não se pode banalizar a ameaça suicida”, explica o professor.

Afetados

As pessoas impactadas pelo suicídio de alguém são chamadas de “sobreviventes”. A psicóloga Vivian Zicker afirma que, após o suicídio, os sobreviventes precisam buscar apoio para entender que aquela morte pode ter sido o resultado de um transtorno mental não diagnosticado ou tratado. “Fazemos um trabalho de psicoeducação, identificamos qual era o transtorno mental e como isso influencia a construção do pensamento para que a pessoa não tenha conseguido encontrar nenhum tipo de saída que não fosse a morte”, elucida a especialista, que atua no Gaes.

Um fenômeno curioso que envolve alguns enlutados por suicídio é o que a pesquisadora Julie Cerel chama de “crescimento pós-traumático”. Diretora do Laboratório de Prevenção e Exposição ao Suicídio da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, Julie revela não ser incomum que pessoas atingidas por essa dor mergulhem no assunto com tanta sede que acabem desenvolvendo atividades correlatas ao tema. Escrevem livros, fazem mestrado e criam grupos sobre o assunto.

“Para algumas pessoas, é a pior coisa que lhes acontece, e nunca superam. Em outras, elas experimentam algo chamado de ‘crescimento pós-traumático’, no qual sua vida ganha significado, e elas realizam coisas que nunca fariam”, explica Julie.

Foi assim com Túlio Damascena, que foi atropelado pela notícia de que o filho, um rapaz de 17 anos, havia cometido o suicídio. Após muitas leituras para buscar entender o que se passou com o jovem, ele planeja criar um clube de leitura sobre luto. “Estou tentando me fortalecer para dar continuidade à minha vida de um jeito menos dolorido”, diz.

(*) Nome fictício

“Essa dor não vai acabar nunca”

Eu perdi a minha irmã no dia 21 de dezembro de 2018. Ela estava com 58 anos, tinha deficiência intelectual e auditiva. Fazia terapia e tratamento psiquiátrico desde outubro. Ela sempre teve um comportamento diferenciado, mas eu achei que era por causa da deficiência. Ela não tinha, até outubro de 2018, nenhum diagnóstico de transtorno mental. Mas se suicidou, mesmo estando vigiada, em casa, 24 horas por dia, menos de dois meses depois de iniciado o tratamento. Foi a coisa mais triste que aconteceu na minha vida. O que me sustentou nos primeiros dias foram o carinho, a atenção e a companhia de importantes amigos e amigas. A vida segue, e eu, aos poucos, vou aprendendo que essa dor não vai acabar nunca, mas que ela pode ser “guardada” no meu coração ao lado do amor que eu sempre dei e recebi da minha irmã. É o que estou tentando fazer! No Gaes (Grupo de Apoio a Enlutados por Suicídio da UFMG), encontrei acolhimento e muitas informações sobre suicídio e luto. Informações que eu nunca tinha recebido em nenhum outro tempo ou lugar.

* Rosângela de Souza Vilaça

Perdeu a irmã de 58 anos

“Busco formas de amenizar a dor”

Eu perdi o meu filho quando ele tinha 17 anos. Ele era mediador de leitura em uma biblioteca comunitária. Chegou a ter um texto publicado na revista de literatura “451”. Com a dificuldade na escola, principalmente em matemática, e uma insistente tristeza, nós o colocamos em uma psicóloga. Em 20 de novembro de 2019, eu o encontrei sem vida na casa onde morava com a mãe.

Os dias que se seguiram a essa tragédia marcaram muito a vida de todos nós. Ninguém, nem mesmo a psicóloga, conseguiu prever que a doença mental fosse capaz de fazer com que ele chegasse a esse ponto de desespero.

Ao participar do grupo de enlutados, consegui me fortalecer e busco formas de amenizar a dor. Desde então, eu tenho lido muito a respeito de doenças mentais, luto e a morte, tentando me fortalecer para dar continuidade à minha vida de um jeito menos dolorido. Para o próximo ano, pretendo criar um clube do livro para tratar do tema luto.

* Túlio Damascena

Perdeu o filho de 17 anos

Fonte: https://www.otempo.com.br/hotsites/uma-chance-para-a-vida/vidas-que-se-vao-luto-que-fica-para-familiares-e-amigos-1.2541675

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